Publicada em: 09/04/2021 09:02

Professor da UEA é destaque em portal "Pretos no Direito" e recorda casos de racismo

Uma pesquisa do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert) feita com nove dos maiores escritórios de advocacia do país, concluiu que apenas 1% dos advogados que compõem essas bancas são pretos. O estudo confirma que a presença de negros nas carreiras jurídicas de importantes escritórios e empresas é muito abaixo do ideal. Comprova também, a enorme desproporção com o número de habitantes no Brasil, visto que, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 54% da população brasileira é preta.

Com o objetivo de contribuir para a alteração dessa realidade, o projeto "Pretos no Direito" foi idealizado para auxiliar na inserção de negros no mercado jurídico, em especial nas grandes empresas e escritórios. O portal é uma plataforma de conexão entre estudantes e profissionais pretos e empresas que tenham o interesse e compromisso de tornar o ambiente jurídico mais inclusivo.

O professor do curso de Direito da Escola Superior de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Amazonas (ESO/UEA), Aldo Evangelista, compõe o projeto e foi o primeiro da Região Norte a ganhar destaque no portal ressalta a importância de haver pretos em espaços nos meios jurídicos.

Apesar de ocupar vários cargos e status socialmente relevantes, o professor recorda casos em que o racismo se manifestou, explícita ou implicitamente. "Nesses últimos três anos dediquei minha vida ao direito digital. O desafio é: no mundo da tecnologia, de um modo geral, há poucas pessoas pretas. Já percebi, em locais onde estou para dar palestras, quando sou anunciado, algumas pessoas olham com certa estranheza, acho que por esperarem uma pessoa com outra aparência. Mas depois que começo a falar os ouvintes veem que eu domino o assunto, a situação melhora", comenta.

O professor enfatiza que oportunidades de destaque, como a que o Pretos no Direito proporciona servem para inspirar outras pessoas pretas se orgulharem da cor, e tomarem como referência que elas podem, sim, desenvolver-se na sociedade e alcançar sonhos. "Quando você é olhado diferente, você precisa sempre entregar algo a mais, para tentar mudar a mentalidade dos cidadãos e provar que pode ser tão bom quanto qualquer outro", aponta Evangelista.

Apesar de não falar muito sobre, Aldo relata que adolescência também passou por situações de entrar em lugares e receber olhares estranhos, e sabia que era, exatamente, por causa do cabelo ou da cor da pele. "Já adulto, fiz o curso de Direito no Rio Grande do Sul, e lá, tem um supermercado que, nas vezes em que frequentei, havia seguranças me seguindo, meio discretos. Eu sabia que era por conta da minha cor, então percebi que no local não trabalhava nenhum funcionário preto. Então parei de frequentá-lo e comecei a ir em outros supermercados", desabafou.

Por fim, Evangelista, cujo currículo inclui especializações em Gestão Pública Municipal, MBA em Gestão Jurídica e Direito Digital e Compliance, relembra quando foi revistado pela polícia sem nenhum motivo aparente. "Eu estava na frente de uma loja, esperando um táxi para ir embora, quando a polícia militar chegou me abordando para me vistoriar, alegando que houve um assalto nas proximidades. Mas depois que provei com meus documentos que era estudante de Direito, e mostrei a nota fiscal da loja onde havia feito compras, fui dispensado", concluiu Aldo, que, aliás, também é Procurador Municipal de Coari.

Texto: Guilherme Oliveira / ASCOM UEA

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